São 19h, o plantão acabou, mas poderia ser meia-noite, o corpo não reconhece mais a diferença. No caminho de casa, a cabeça ainda está no paciente do leito 12, naquela prescrição pendente ou na conversa difícil com a família enlutada. Quando foi a última vez que você almoçou sentada(o)? Ou dormiu sem acordar projetando as demandas do dia seguinte?
Se essa cena é a sua rotina, entenda: o estresse crônico não é algo a ser "suportado". Como psicóloga, acompanho profissionais da saúde que enfrentam diariamente o peso da responsabilidade sobre a vida alheia. O que você sente pode ser a Síndrome de Burnout (CID-11), um esgotamento que vai muito além do cansaço físico.
Na psicologia, entendemos que o esgotamento profissional na saúde é alimentado por uma tríade de sinais:
Muitas vezes, esse quadro é agravado por lutos não elaborados. No dia a dia da saúde, as perdas são frequentes e, sem tempo para processar o impacto emocional de cada despedida, o profissional acumula uma carga silenciosa que acelera o colapso.
Para interromper o ciclo do esgotamento, precisamos estabelecer limites fundamentais. A psicoeducação nos ensina que o limite não é falta de comprometimento, mas a única forma de garantir que você continue sendo um profissional capaz de cuidar.
Seu cérebro precisa do que chamamos de vigilância zero para se regenerar. Folga não é "sobreaviso informal". O direito de se desligar de grupos de mensagens e demandas administrativas é vital para recuperar sua saúde mental e processar as experiências vividas no hospital ou na clínica.
Assumir falhas de gestão ou cobrir lacunas institucionais de forma crônica coloca em risco a sua segurança e a do paciente. O profissional exausto está mais suscetível a erros de atenção. Dizer "não" a um plantão extra quando se está no limite é um atitude ética e de proteção.
No cenário de cuidado constante com o outro, é comum o profissional se anular. Mas pausas para hidratação, alimentação e a sua própria psicoterapia não são luxos, são pré-requisitos. Para sustentar a vida de quem você cuida, você precisa primeiro sustentar a sua.
O tratamento para o Burnout passa pelo resgate da identidade que existe por trás do jaleco. A psicoterapia é o espaço seguro para acolher suas perdas, tratar o esgotamento e aprender a lidar com o luto inerente à nossa profissão.
Não espere o colapso chegar silenciosamente. Se você sente que sua reserva emocional chegou ao limite, buscar ajuda profissional é o primeiro passo para o seu diagnóstico e para o retorno ao equilíbrio.
Elizabeth Hernandez
Psicóloga Online | CRP07/23235
Especialista em Luto